domingo, 1 de novembro de 2009

A crítica e o mercado. Artigo para o jornal da ABCA


Cauê Alves


O valor cultural e econômico da arte é estabelecido, como se sabe, por uma espécie de consenso que inclui galerias, colecionadores, mídia, recepção do público, curadores, crítica, editores e instituições diversas como museus, centros culturais e universidades.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Arte brasileira busca consolidar prestígio no mercado internacional

Quando a Bienal do Mercosul abrir suas portas nesta sexta-feira em Porto Alegre, galeristas brasileiros estarão de olho no colecionador estrangeiro. O Globo


LONDRES - Quando a Bienal do Mercosul abrir suas portas nesta sexta-feira em Porto Alegre, galeristas brasileiros estarão de olho no colecionador estrangeiro. Para especialistas, vários indicadores sugerem que a arte brasileira viveria hoje seu momento de maior prestígio da história.

De acordo com Tanya Barson, curadora de arte latino-americana da galeria britânica Tate Modern, a arte brasileira tem hoje um impacto muito mais amplo no circuito internacional do que em qualquer outro momento de sua história.

A colecionadora e diretora da feira internacional de arte de São Paulo (SP Arte), Fernanda Feitosa, concorda. Ela diz que, desde que o evento foi criado, há cinco anos, o número de galerias participantes dobrou, e o público também.

E lembra que um dos marchands mais famosos do mundo, o britânico Jay Joplin, esteve na SP Arte em abril desse ano. "Achei muito sintomático que o Jay Joplin, ícone da arte dos anos 90, tenha dedicado uma semana da agenda dele ao Brasil".


A presença de Jay Joplin - dono da galeria londrina White Cube e figura-chave nas carreiras de Damien Hirst e outros grandes nomes da arte britânica - na SP Arte também chamou a atenção do jornal alemão DieWelt.

Também em abril, o jornal publicou uma reportagem afirmando que a arte do Brasil teria alcançado reputação sem precedentes no mundo.

Como evidências do fenômeno, o Welt citou, além da visita de Jay Joplin à SP Arte, a exposição do brasileiro Cildo Meireles na galeria britânica Tate Modern, ano passado (um recorde de audiência) além da presença de cada vez mais obras do Brasil no acervo da galeria.

O valor das obras no mercado internacional, disse o jornal, também estaria subindo.

Fatores Econômicos

Para o professor de História da Arte Contemporânea da Unicamp Nélson Aguilar, curador geral da 22ª e 23ª bienais de São Paulo e da 4ª Bienal do Mercosul, existe mesmo um maior reconhecimento da arte brasileira no exterior.

Ele disse à BBC Brasil que a emergência do país no cenário econômico internacional tem influência nisso. E apontou para o crescente interesse pela arte de outros integrantes do grupo dos Bric, como Índia e China.

Aguilar acredita, no entanto, que no caso do Brasil o reconhecimento de hoje não se explica apenas por fatores econômicos.

O especialista está se referindo a uma linhagem que inclui, mais atrás, artistas como Hélio Oiticica, Lygia Clark e Mira Schendel.

"Nos anos sessenta, nós sabíamos que o Oiticica era um gênio, e que a Lygia Clark e a Mira Schendel estavam fazendo um trabalho importantíssimo. Víamos esses artistas passarem batidos no exterior mas sabíamos que a visão da crítica estrangeira era eurocêntrica e restrita".

Aguilar diz que a Inglaterra, no entanto, sempre foi mais aberta. E lembra as exposições pioneiras desses três artistas nas galerias Signals e Whitechapel, em Londres, nos anos 60.

Identidade

Tanya Barson tem uma interpretação diferente.

"Eu não diria que o mundo das artes britânico fosse tão iluminado a ponto de reconhecer a importância daquelas carreiras naquele período. A Tate, por exemplo, não comprou obras desses artistas, com exceção de uma, de Sérgio Camargo, naquela época".

"A situação é completamente diferente hoje e o mundo está reconhecendo quão imensamente significativa é a arte brasileira, tanto em termos de sua produção contemporânea quanto em sua história recente".

"O trabalho dele tem substância, consistência e rigor intelectual e ele é um dos mais importantes artistas vivos. Estava mais do que na hora de ele ser tema de uma exposição de grande porte, como a feita pela Tate."

Barson fala com paixão da arte do Brasil, um país que ela visita regularmente porque, nas palavras dela, "a Tate não pode deixar de ficar atenta à produção de jovens artistas emergindo hoje no Brasil".

"Artistas brasileiros se relacionam com a arte moderna de uma maneira totalmente única, inovam e dialogam muito bem com arte européia e americana, mas fazem algo completamente distinto. Eles não só podem ser incorporados, como também desafiam o cânon da história da arte que contamos".

Hoje a Tate Modern tem em seu acervo obras de mais de 20 artistas brasileiros, entre eles Hélio Oiticica, Lygia Clark, Mira Schendel, Cildo Meireles, Ana Maria Pacheco, Vik Muniz, Adriana Varejão, Ernesto Neto, Fernanda Gomes, Sérgio Camargo e Leonílson.

Sem Consenso

Alguns, como a artista paulistana Mariannita Luzzati, são mais céticos em relação à posição da arte brasileira no mundo hoje.

Luzzati vive parte do tempo na Inglaterra e exibe seu trabalho regularmente no Brasil e no exterior. Ela é representada por galerias nos dois países. Em 2001, dois de seus quadros foram comprados pelo Museu Britânico, em Londres.

"Tenho certeza de que se tivesse nascido e estudado na Inglaterra, estaria melhor hoje do que sendo brasileira na Inglaterra", ela disse à BBC Brasil.

A artista disse ter observado um interesse um pouco maior por parte da Tate em adquirir alguns artistas brasileiros, mas acha que, quando se trata de competir no mercado internacional, a arte do Brasil ainda está "engatinhando".

Luzzati faz uma lista dos velhos problemas que afligem o setor: falta de investimento público na divulgação da arte brasileira no exterior, despreparo dos museus, e, também, o perfil do colecionador brasileiro.

"A maioria dos colecionadores no Brasil compra como um sinal de status e prefere o artista que está fazendo sucesso na Inglaterra ou nos Estados Unidos, porque ele dá mais status do que o brasileiro".

"Eu espero que o Brasil seja a bola da vez, que a arte brasileira estoure como estourou a arte chinesa, mas no caso da China, antes do investimento estrangeiro, houve milhares de colecionadores chineses investindo em chineses".

Números

Se nos basearmos em números, a idéia de que o Brasil seja mesmo a bola da vez no mercado internacional de arte se torna um sonho distante: as obras brasileiras ainda não atingiram os valores milionários alcançados por trabalhos de pesos pesados da arte contemporânea mundial.

Para a diretora da SP Arte Fernanda Feitosa, isso pode na verdade aumentar os atrativos da arte brasileira.

"Um quadro da Beatriz Milhazes aqui na feira estava sendo vendido por US$ 500 mil", disse Fernanda Feitosa, diretora da SP Arte, à BBC Brasil.


"Um Cildo Meireles não custa a mesma coisa que um artista comparável a ele no mercado internacional. Então ainda existe muito espaço para uma valorização da arte brasileira. Você não está comprando no topo".

Uma pessoa poderia talvez ajudar a fechar esse debate mas, famosamente, não dá entrevistas.

Apesar de várias solicitações da BBC Brasil, o lendário galerista e investidor britânico Jay Joplin não estava disponível para explicar o que foi fazer no Brasil em abril deste ano.

Publicado em 15/10/09

Fonte: BBC Brasil

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Mostras expõem contornos da arte contemporânea

A arte contemporânea ganha espaço na cidade com três exposições que começam hoje.

(...)

Na terceira edição, a SP Arte/Foto, maior feira dedicada exclusivamente à fotografia, leva ao 9º andar do Shopping Iguatemi 17 galerias de arte provenientes de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. Entre os artistas renomados que têm seus trabalhos expostos estão J.R. Duran, Caio Resewitz, Mario Cravo Neto, Claudia Jaguaribe e Michael Wesely.

Publicado em 10/9/09

Íntegra: Destak Jornal

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A arte do portrait pelo fotojornalismo

Mostra na SP-Arte/Foto reúne 10 retratos de personalidades da cultura feitos a partir de 2003 por fotógrafos do 'Estado'

Camila Molina

Definir uma pessoa por meio de apenas uma imagem é uma tradição que remonta à Antiguidade. E na fotografia, especialmente no jornalismo, o gênero do retrato, ou portrait, é uma arte e não uma foto "instantânea" que contempla, como afirma o crítico e repórter especial do Caderno 2, Antonio Gonçalves Filho, uma relação muito estreita com os retratos pintados da era vitoriana: os fotorrepórteres traduzem com criatividade a personalidade e a profissão de um retratado se valendo de um cuidado formal tal como num quadro. Essa é a tônica da mostra Portraits - Fotojornalismo em O Estado de S. Paulo, que será inaugurada hoje na abertura da 3ª edição da feira SP-Arte/Foto/2009, no Shopping Iguatemi. Com curadoria de Gonçalves Filho, a exposição apresenta dez retratos de personalidades do meio cultural feitos por premiados fotógrafos do jornal.

Quando o crítico foi convidado pela diretora da feira, Fernanda Feitosa, para fazer uma exposição com fotografias do Estado dentro de um espaço cedido pelo evento, a ideia de dar destaque ao portrait surgiu naturalmente. "Era uma maneira de fugir do formato das mostras de fotojornalismo, que privilegiam as tragédias cotidianas", diz Gonçalves Filho. Para a pré-seleção das imagens, todos os repórteres fotográficos foram chamados a enviar portfólio - sem identificação do nome do fotógrafo - com retratos que tinham feito para a área artística. "Foi uma seleção no escuro, pelo impacto das imagens", diz o curador, que, com trabalho, chegou à escolha de dez portraits, assinados por Antonio Milena (da atriz Bibi Ferreira), Eduardo Nicolau (do músico Edgard Scandurra), Ernesto Rodrigues (do escritor José Saramago), Jonne Roriz (da atriz Leticia Sabatella), José Luis da Conceição (do estilista Alexandre Herchcovitch), José Patrício (do ator Paulo Autran), Hélvio Romero (do cantor e compositor Paulinho da Viola), Márcio Fernandes (do bibliófilo José Mindlin), Paulo Liebert (do cineasta Wim Wenders) e Paulo Pinto (dos cantores Seu Jorge e Ana Carolina).

Os retratos foram clicados entre 2003 e 2009 e revelam um diálogo particular entre os modelos e os fotojornalistas. Muitas são as histórias por detrás das obras, mas, como afirma o curador, "nenhuma palavra conseguiria ser tão autêntica como documento". Paulo Autran, pouco antes de morrer, em 2007, se despede de uma plateia. Bibi Ferreira, no camarim meio escuro, tem uma expressão facial "que traduz sua carreira", diz Gonçalves Filho, remetendo à de seu papel em Gota D"Água. Obras de artistas.

Publicado em 9/9/09

Fonte: O Estado de S. Paulo

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Um novo foco

SP PHOTO FEST E SP ARTE/FOTO

De 9 a 13 de Setembro de 2009


De formas complementares, porém distintas, dois eventos pretendem discutir fotografia na próxima semana, em São Paulo. De um lado, profissionais reúnem-se para palestras e workshops na primeira edição do SP Photo Fest, realizado pelo Museu da Imagem e do Som, entre os dias 9 e 13 de setembro. No dia 10, começa a SP Arte/Foto, feira de fotografia que acontece nos moldes da SP Arte e reúne o acervo de dezessete galerias, além de também promover mesas-redondas, no Espaço Iguatemi.

São conteúdos e intenções diferentes, mas ambos participam desse momento em que a fotografia é vista como objeto de consumo e personagem central de leilões e coleções. Em sua terceira edição, a SP Arte/Foto procura clientes interessados em aumentar seu acervo, enquanto a SP Photo Fest ajuda a formar o público apreciador dessa arte.

“Diferentemente da SP Arte original, que abrange a arte contemporânea, este é um momento em que nos preparamos para discutir só a fotografia. O interesse do público é contínuo, existe certa afinidade com a linguagem porque ela responde com facilidade aos anseios do nosso tempo”, diz Fernanda Feitosa, organizadora da feira. Para a discussão sobre o tema, a SP Arte/Foto recebe Mark Lubell, diretor-executivo da agência Magnum, Jean-Luc Monterosso, diretor da Maison Européenne de La Photographie, e o fotógrafo francês Elliott Erwitt. Mario Cravo Neto, morto mês passado, é homenageado na única mostra da feira que não estará à venda.

Focado em debater a arte de maneira regional, o SP Photo Fest está mais interessado em formar seu público. Para isso, realiza palestras gratuitas, workshops em campo, debates e leituras de portfólios. Cristiano Mascaro, homenageado do evento, é um dos que discutem o tema São Paulo – Realidade e ficção, assim como Eustáquio Neves e Fabiana Figueiredo. “Ninguém melhor do que Mascaro para representar a primeira edição do evento, já que sua carreira foi em boa parte focada na cidade”, diz Luiz Marinho, organizador do festival.

Publicado em 4/9/09

Fonte: Carta Capital

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Uma feira voltada para mercado e para a reflexão sobre o meio

Ideia é reafirmar o papel do profissional como artista que documenta a história

Simonetta Persichetti

Cada vez mais protagonista nas galerias e museus do mundo todo, a fotografia se apresenta em São Paulo na terceira edição da SP-Arte/Foto (de 9 a 13 de setembro no Shopping Iguatemi) como a expressão mais significativa da arte contemporânea. Polissêmica, poderá ser vista nas suas mais variadas estéticas distribuída pelas 17 galerias provenientes de São Paulo, Rio e Bahia que no total vão apresentar 300 imagens.

Desde o começo dos anos 90 a fotografia - que sempre fez parte das coleções de museus - fica mais expressiva dentro de um novo mercado que é o das galerias. Crescem também os festivais internacionais, aumentam as publicações de livros, portfólios de artistas e um debate, antes restrito, se alarga e se propaga até nas universidades.

Realizada pela SP-Arte - Feira Internacional de Artes de São Paulo -, criada e organizada há cinco anos por Fernanda Feitosa, resultado de sua vontade férrea de agregar num único espaço artistas, galeristas, colecionadores e amantes da arte, a SP-Arte/Foto (que até o ano passado se chamava I-Contemporâneo Circuito da Fotografia) percebeu este movimento e neste ano, pela primeira vez, criou um painel de encontros em que convidados internacionais e nacionais poderão debater o estatuto da fotografia no panorama mundial: "Desde o início da SP-Arte, notei o crescente interesse do público pela fotografia, assim como o das galerias em trabalhar, cada vez mais, com fotógrafos. Daí o surgimento de uma feira só para a fotografia", comenta Fernanda.

Para ela, "todo mundo tem dentro de si um fotógrafo e as pessoas têm uma afinidade muito grande com a fotografia, que é uma linguagem que agrega e cada vez mais divide espaço com a pintura dentro das preferências de colecionadores e apreciadores de arte".

Ela mesma é colecionadora e deixa bem claro que o evento é, sim, uma feira e como tal sua primeira proposta é incrementar o mercado das imagens: "Só no ano passado mais de seis mil pessoas passaram pela feira de fotografia e mais de 13 mil na de arte na Bienal do Ibirapuera. Um novo público de colecionadores está se formando e a maioria é de jovens."

E ela é assim. Antenada, visionária - no que esta palavra tem de melhor -, Fernanda Feitosa arrisca, ousa e apresenta logo na entrada do evento uma parede com fotos jornalísticas produzidas pelos profissionais do Estado (leia texto ao lado): "Quero mostrar onde a fotografia está. Nas mais variadas formas de conhecimento. Reafirmar o fotógrafo como artista, como autor. Quero criar um polo de discussão e não ser apenas reflexo do que se mostra e aparece nas galerias do mundo todo. O fotojornalismo é a documentação do nosso dia a dia."

Depois do 11 de Setembro, as imagens do atentado passaram a participar de leilões e aparecer em contextos até então alheios a ele. Por isso, o fotojornalismo aparece também nas imagens de Jean Manzon, Hildegard Rosenthal, na agência Magnum, nos registros de Otto Stupakoff, que foi um grande fotógrafo de moda, além de mais de 80 artistas que se expressam fotograficamente das mais variadas formas.

Difícil apontar destaques dentro de um evento como este, mas é mais fácil perceber pontos que merecem atenção como a presença do fotógrafo Elliot Erwitt, da Magnum; das fotografias de Abelardo Morell, fotógrafo cubano radicado em Nova York, conhecido no Brasil pela sua série Câmara Obscura (apresentada no MAM-SP em 2006); assim como a presença de Mark Lubell, diretor executivo da Magnum Photos, e de Jean-Luc Monterosso, diretor da Maison Européenne de la Photographie de Paris.

É preciso também relevar a bela homenagem da galeria Paulo Darzé, da Bahia, que traz uma série de imagens de Mario Cravo Neto (1947-2009), sem, contudo, colocá-las à venda. Uma homenagem silenciosa mais do que merecida.

Um evento que reflete sobre a ascensão e a importância da fotografia no mercado da arte. Uma feira que reafirma o papel fundamental da fotografia na sociedade contemporânea. Um possibilidade de aprender a olhar!


Publicado em 1/9/09

Fonte: O Estadao de S.Paulo